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Produtos sem lactose são bons para todos ou apenas modismo?

Georgia Castro

22/01/2018 04h20

O primeiro alimento que recebemos ao nascer é o leite materno e o ideal é que seja substituído apenas após os 2 anos de idade pelo leite de vaca. Só que, mesmo sendo consumido há tempos, ainda hoje o leite que compramos nos supermercados costuma ser questionado. E quais seriam os motivos? Entre algumas razões mencionadas, muitas delas sem a devida comprovação científica, está a associação do leite à intolerância à lactose, que o tornaria pesado e de difícil digestão.

Essa intolerância é a incapacidade parcial ou completa de digerir o açúcar existente no leite, a tal lactose. E ela ocorre quando o organismo deixa de produzir –ou produz em quantidade insuficiente– uma enzima digestiva chamada lactase, capaz de quebrar a lactose em duas outras moléculas de açúcar, a glicose e a galactose. Em resumo , quem não produz a lactase não consegue digerir a lactose e isso, de fato, gera grande desconforto abdominal, sem contar outros sintomas, como a diarreia.

Uma confusão comum é relacionar intolerância à lactose com alergias. A alergia alimentar é uma reação do sistema imunológico a um determinado componente. No caso do leite, algumas proteínas podem causar reações assim, como a caseína,  a albumina, as proteases e  as peptonas, entre outras. Essas proteínas causadoras de alergias, porém, não têm nada a ver com a lactose por trás da intolerância.

A carência da lactase dos intolerantes pode ser controlada com dieta e medicamentos. Uma vez diagnosticado o problema, o primeiro passo do tratamento é  suspender a ingestão do leite e seus derivados. Posteriormente , esses alimentos devem ser reintroduzidos aos poucos até que se identifique a quantidade máxima que o organismo suporta sem manifestar qualquer sintoma adverso. Essa conduta terapêutica tem como objetivo manter a oferta de cálcio na alimentação, nutriente que, junto com a vitamina D, é indispensável para a formação saudável de massa óssea.

Indivíduos com intolerâncias mais severas à lactose têm como excelente alternativa utilizar suplementos de lactase, ingeridos antes do momento de consumir um alimento com lactose. Esses suplementos, hoje, podem ser encontrados nas farmácias. Mas atenção: só devem ser utilizados sob recomendação de médicos ou nutricionistas.

Na hora das compras, os intolerantes devem prestar atenção à rotulagem. Qualquer alimento, lácteo ou não, que apresentar a quantidade de lactose maior que 0,1% deve apresentar no seu rótulo a declaração : "contém lactose", justamente para acender o sinal de alerta para os consumidores intolerantes.

Muitas vezes, a melhor opção é mesmo fazer uso dos leites modificados, que apresentam a seguinte declaração no rótulo: "baixo em lactose". Isso significa que, naquele produto, a quantidade de lactose é maior do que 0,1% e igual ou menor do que 1%.

Existem ainda produtos que estampam "zero lactose" no rótulo. Neles, a quantidade de lactose é igual ou menor a 0,1%. Para oferecer produtos como esses, a indústria usa a mesma enzima lactase dos suplementos, durante o processo de produção. Daí que o leite e seus derivados podem chegar às nossas mesas já livres da lactose.

Saiba que o leite é um alimento muito importante. Apresenta em sua composição cerca de 3,5% de proteínas, sendo 2,9% em caseínas e 0,6% em proteínas do soro de leite, como a lactoalbumina. Também é fonte de cálcio e apresenta uma boa quantidade de fósforo. Sem contar que possui 3% de gordura de boa funcionalidade. E é um alimento de produção e oferta ampla, com cadeia de distribuição estabelecida e grande aceitação por parte do público.

Devo reforçar que  indivíduos que não são intolerantes à lactose não precisam se preocupar com suplementos ou alimentos com redução desse açúcar. Não faz o menor sentido, se não têm dificuldade para digerir a lactose. Claro, existem os intolerantes. Só que, atenção, eles não são maioria. Estima-se que apenas de 35% a 40%  da população brasileira tenha algum grau de intolerância.

Até mesmo os intolerantes encontram excelentes alternativas, algumas delas proporcionadas pela tecnologia biológica aplicada, que possibilita os microorganismos a produzirem a enzima lactase, para que os  consumidores convivam  bem com os produtos tradicionalmente ricos em lactose, sem abrir mão do seu importante valor nutricional.  Não há razão, portanto, para o preconceito contra o leite por conta da intolerância.

Já bebeu o seu leite hoje?

Sobre a autora

Engenheira de alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, e doutora em nutrição pela Universidade Estadual de Campinas e pelo INRA, na França, Georgia Castro passou mais de 20 anos na área de assuntos científicos e pesquisa aplicada de algumas das maiores indústrias de alimentos do mundo, conhecendo como poucos os bastidores da produção daquilo que chega à nossa mesa. Atualmente, trabalha como coach de saúde e bem-estar.

Sobre o blog

Um espaço para você saber a verdade e compreender a composição dos alimentos embalados, aqueles que compramos no supermercado, nos atacados, nas lojas de conveniências ou que pedimos em cantinas, lanchonetes, bares e outros locais tão presentes na vida cotidiana. Assim, com informação, você será capaz de fazer escolhas de forma mais consciente.