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Precisamos de alimentos industrializados por conveniência ou sobrevivência?

Georgia Castro

27/11/2017 04h10

Crédito: iStock

Ao comprarmos comida nos canais tradicionais de varejo, podemos nos deparar com a seguinte questão: "Por que consumimos, na maioria das vezes, alimentos industrializados?" Ainda que alguma estratégia de marketing dos fabricantes para aumentar as vendas dos seus produtos possa ser a primeira resposta que venha à mente, a real origem da tecnologia para processar alimentos foi a garantia da sobrevivência de uma parcela da humanidade em um dado momento da história.

No início do século XX, com o advento da 1ª Guerra Mundial, urgia a necessidade do suprimento para numerosos soldados e equipes de apoio nos campos de batalha na Europa. Entretanto, os grandes volumes de alimentos necessários para atender a essa demanda frequentemente chegavam já em estágio avançado de decomposição, com mau cheiro. Portanto, inapropriados para o consumo.

Ou seja, os alimentos frescos, tal e qual são extraídos da natureza (os "in natura") não resistiam ao manuseio, ao transporte e a distribuição para as distantes zonas de guerra. Foi nesse contexto histórico que a ciência e a tecnologia dos alimentos deu um salto. E, quando falamos disso, é muito importante que associemos a industrialização dos alimentos antes de mais nada como algo positivo, que veio para melhorar a qualidade de vida das pessoas, trazendo mais conveniência e segurança. O que é muito distante de uma simples proposta comercial.

Aliás, quando a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (ONU/FAO) se refere à segurança alimentar, fica clara a menção sobre a necessidade de se assegurar alimento suficiente para toda a humanidade. Disponível e com qualidade, claro.

Com a população mundial na casa dos 7,3 bilhões de indivíduos (com uma projeção de 9,7 bilhões para 2050 e 11,2 bilhões para 2100, de acordo com a ONU), considerando também as imensas distâncias geográficas entre produtores e centros urbanos, como seria possível atender à necessidade de obter alimentos sem colocar em risco a saúde? Só mesmo lançando mão de tecnologia. Aliás, elas é que possibilitaram uma expectativa de vida crescente e o consequente crescimento da população.

É importante refletir sobre como nossos avós viviam e como nós vivemos hoje. Na época deles, boa parte das pessoas vivia de 50 a 60 anos, morava muito mais no campo ou em pequenas cidades e não tinha tanta oportunidade de se deslocar por grandes distâncias, entre outras características. Nesse contexto, era mais fácil.

Somente para tomarmos a área dos laticínios como um exemplo prático, sua principal matéria prima, o leite, é um produto altamente perecível. Portanto, é um privilégio dos nossos tempos poder consumir um leite após 4 meses de sua ordenha na fazenda por dispormos da tecnologia UHT (ultra high temperature) utilizada em larga escala nos produtos de "caixinha" que encontramos com facilidade em qualquer lugar do Brasil. E também é um privilégio ter a conveniência de consumir esse leite com fibra solúvel ou ômega-3, com fórmulas desenvolvidas por equipes especializadas que garantem a sua padronização e segurança, sempre procurando atender à crescente exigência do consumidor em termos de sabor e perfil nutricional. Leite produzido em Minas Gerais, fibra solúvel criada a partir de vegetais plantados em várias regiões do mundo e o ômega-3 oriundo de peixes da costa peruana , por exemplo, direto para a mesa de consumidores do Oiapoque ao Chuí. Algo inimaginável, há menos de quarenta anos. E muito menos ainda na época da infância dos nossos avós.

Sobre a autora

Engenheira de alimentos pela Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, e doutora em nutrição pela Universidade Estadual de Campinas e pelo INRA, na França, Georgia Castro passou mais de 20 anos na área de assuntos científicos e pesquisa aplicada de algumas das maiores indústrias de alimentos do mundo, conhecendo como poucos os bastidores da produção daquilo que chega à nossa mesa. Atualmente, trabalha como coach de saúde e bem-estar.

Sobre o blog

Um espaço para você saber a verdade e compreender a composição dos alimentos embalados, aqueles que compramos no supermercado, nos atacados, nas lojas de conveniências ou que pedimos em cantinas, lanchonetes, bares e outros locais tão presentes na vida cotidiana. Assim, com informação, você será capaz de fazer escolhas de forma mais consciente.